A nova fronteira e o desafio da performance natural
A “vida de prateleira” dos alimentos não se trata apenas de trocar aditivos, mas de escolher melhor e atende a demanda do consumidor. A substituição de conservantes sintéticos por soluções naturais impõe à indústria de alimentos um complexo quebra-cabeça técnico, regulatório e de custos. O CAMINHO? SINERGIA DE INGREDIENTES E FOCO NA SEGURANÇA
O “shelf life”, ou “tempo de vida útil”, sempre foi um pilar fundamental da indústria de alimentos, garantindo segurança, qualidade sensorial e viabilidade logística. No entanto, este pilar está sendo reestruturado sob a pressão do consumidor por rótulos limpos com ingredientes “naturais” e “familiares”. Isso forçou as empresas a buscarem alternativas para aditivos sintéticos consagrados, como sorbatos, benzoatos, nitritos e BHT/BHA. A questão é que essa substituição está longe de ser uma troca simples, que agora abre um novo horizonte de desafios técnicos, onde a performance e a segurança alimentar não são negociáveis.
O primeiro e mais difícil obstáculo a vencer é a eficácia. Conservantes sintéticos são o padrão da indústria por uma razão: funcionam de maneira robusta, previsível, estável e a baixo custo, resultado de décadas de otimização. O desafio de replicar essa performance com ingredientes de origem natural é o principal gargalo da indústria. Hoje, com o padrão existente, a comparação é implacável. Além da eficácia pura, a variabilidade da matéria-prima natural entra na equação, exigindo um controle de processo muito mais rigoroso, como detalha Damares Mota Bonfati, Gerente de Desenvolvimento de Negócios e Aplicação do Grupo MCassab.
ECONOMIA EM ALERTA!
Além da performance técnica e do impacto sensorial, o fator econômico é, muitas vezes, outro obstáculo final para a implementação em larga escala de algumas alternativas. Embora eficazes, as soluções naturais ainda lutam para competir em custo com os sintéticos, e a indústria segue travando a batalha para alcançar a melhor rentabilidade.
A FRONTEIRA REGULATÓRIA: O LABIRINTO DA ROTULAGEM
Se o desafio no laboratório é complexo, o desafio no papel não é menos complicado. O próprio conceito de “rótulo limpo” não possui uma definição legal clara, operando em um campo cinza e confuso entre o marketing e a regulação. Nessa equação também está o consumidor, que nem sempre conhece as especificações da lei, mas que está cada vez mais atento para esses detalhes.
Muitas das soluções naturais mais eficazes passam por processos de extração, purificação ou fermentação controlada para garantir a potência tecnológica. Como explica Júlia Coutinho, Sócia
Fundadora da Regularium, isso cria um paradoxo regulatório: o ingrediente é “natural”, mas seu processo de obtenção o aproxima de um aditivo funcional. Para aumentar a complexidade, a velocidade da inovação em ingredientes é, hoje, muito superior ao ritmo de atualização do arcabouço regulatório. A ANVISA, segundo a especialista da Regularium, possui uma agenda focada em temas de maior risco sanitário imediato, o que acaba por colocar a inovação em alimentos, como a aprovação de novos ingredientes ou tecnologias de conservação, em um ritmo mais lento, gerando imprevisibilidade para a indústria.
“Embora sejam comercializados como naturais, muitos ingredientes são obtidos por processos que modificam substancialmente as matérias-primas originais, para garantir uma eficácia tecnológica similar aos aditivos alimentares que pretendem substituir. Essa situação gera preocupações com a segurança de uso desses ingredientes, além de criar situações potencialmente enganosas do consumidor.”
Júlia Coutinho
Sócia-Fundadora
REGULARIUM
AS NOVAS ALTERNATIVAS DA INDÚSTRIA DE ADITIVOS E INGREDIENTES
Diante desse cenário, a indústria de ingredientes respondeu não com uma única solução, mas com uma variedade de opções diversificadas e com foco em resolver gargalos específicos. A era da “bala de prata” sintética deu lugar à “tecnologia de barreiras” natural. Damares Mota Bonfati, da MCassab, lista as ferramentas mais promissoras que hoje definem a fronteira da inovação em shelf life:
A TENDÊNCIA DOS ÁCIDOS ORGÂNICOS OTIMIZADOS, como os vinagres tamponados, encontra aplicação direta em setores desafiadores como o de panificação, onde o controle de mofos é um dos pontos mais importantes. A tecnologia funciona como uma substituição ‘rótulo limpo’ direta a conservantes sintéticos tradicionais, como o propionato de cálcio.
Este novo portfólio do mercado atende demandas muito claras. A bioproteção (uso de culturas protetoras e suas bacteriocinas) cresce como a principal alternativa ao sorbato no controle de mofos em lácteos e panificação.
OS EXTRATOS VEGETAIS PADRONIZADOS, como alecrim, chá verde e acerola são a linha de frente contra a oxidação lipídica, o maior gargalo dos produtos plant-based e essencial em cárneos. Por fim, os vinagres tamponados e ácidos orgânicos otimizados (obtidos via fermentação) atuam como antimicrobianos eficazes que permitem uma rotulagem mais amigável.
“As principais tendências são o uso de culturas protetoras e bacteriocinas para bioproteção, extratos vegetais e antioxidantes naturais padronizados, vinagres tamponados e ácidos orgânicos otimizados. Tecnologias de processamento também se destacam, assim como embalagens ativas e sensores que ajudam a controlar oxidação e crescimento microbiano.”
Damares Mota Bonfati
Gerente de Desenvolvimento de Negócios e Aplicação
GRUPO MCASSAB
“As alternativas naturais, como extratos vegetais, óleos essenciais ou produtos obtidos por fermentação, muitas vezes não oferecem a mesma performance podendo impactar a segurança alimentar durante a vida útil do produto, especialmente em condições variáveis de pH, umidade e temperatura.”
Celso Silva, Key Account Manager Human Nutrition CAMLIN
A tendência, segundo Celso Silva da Camlin, deve ser o uso de soluções integradas. Deixar de pensar ingredientes separadamente e direcionar o foco para a funcionalidade em conjunto, mesclar diferentes antioxidantes para obter ação sinérgica, como um ‘antioxidante personalizado’ para cada produto ou processo. “Sabemos que estender a vida de prateira dos alimentos é uma das melhores formas de evitar o desperdício de alimentos”, comenta.
Para Cláudia Costa Mattos, Gerente Geral de Inovação e Tecnologia da Duas Rodas, os maiores gargalos técnicos continuam concentrados em categorias complexas, como plant-based, devido à rancificação de gorduras vegetais; cárneos, pela oxidação de lipídios e cor; e panificação, por desafios com mofos e manutenção da qualidade sensorial.
“Nesses casos, soluções integradas combinando antioxidantes, extratos funcionais, controle de processo e embalagem têm se mostrado mais eficazes do que aditivos isolados”, conta.
O futuro da conservação aponta para a integração. A indústria de ingredientes está se movendo de vender produtos isolados para fornecer “sistemas de solução”. Com isso, os setores de pesquisa e desenvolvimento não buscam mais “o” antioxidante natural, mas o “blend personalizado” que resolve o problema daquela matriz específica. O futuro, segundo especialistas, está em pensar na funcionalidade conjunta, um conceito que ele chama de “antioxidante personalizado”.
Essa sinergia se conecta diretamente à pauta ESG (Environmental, Social and Governance). Estender o shelf life não é mais apenas uma questão de custo ou logística; é a principal ferramenta da indústria para combater o desperdício de alimentos (food waste). Soluções que adicionam dias ou semanas à vida de um produto têm um impacto direto e mensurável na redução da pegada de carbono e na otimização de recursos da cadeia produtiva. A tecnologia também será um diferencial para permitir ampliar o shelf life dos ingredientes ao mesmo tempo em que se reduz o desperdício, que é hoje um grande desafio mundial, ao modelo do que já fazem algumas empresas, como a Duas Rodas.
“Tecnologias digitais (monitoramento de shelf life via sensores) e formulações moduladas por dados (modelagem preditiva e análise estatística de sobrevivência) também vão ganhar espaço, apoiadas por ingredientes robustos e padronizados.”
Cláudia Costa Mattos
Gerente Geral de Inovação e Tecnologia
DUAS RODAS
Além da sinergia entre ingredientes e da preocupação com a sustentabilidade, o futuro da conservação também passa pela integração de novas tecnologias de processo e pelo aproveitamento de novas fontes de matéria-prima, criando um ecossistema completo de proteção do alimento. As EMBALAGENS INTELIGENTES, nesse cenário, começam a despontar com destaque, atraindo as indústrias e agradando o consumidor, representando um mercado que deve movimentar até US$ 31,98 bilhões até 2029, segundo um relatório da Mordor Intelligence, ajudando a prolongar o tempo de vida útil e adicionar rastreabilidade.
“As tecnologias de conservação baseadas em processos não térmicos representam uma tendência promissora. Destacam-se a Alta Pressão Hidrostática (HPP), o Ultrassom e a Luz UV. Outro campo em expansão é o das embalagens inteligentes. Os extratos botânicos obtidos de subprodutos industriais ganham relevância por aliarem funcionalidade e sustentabilidade, gerando sinergia direta com metas de economia circular.”
Mônica Sayuri Higa
Technical Services Manager, KEMIN
Publicação original: https://aditivosingredientes.com/revista/index.php?id=4