Publicado 05/10/2026

EFSA aponta prioridades científicas para acompanhar a inovação
EFSA aponta prioridades científicas para a inovação em alimentos e ingredientes

Novos ingredientes, tecnologias de produção, sustentabilidade e inteligência artificial estão entre os temas destacados pela autoridade europeia, com implicações para o planejamento de estudos e dossiês de segurança.

A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) apresentou, em editorial publicado no EFSA Journal, as principais necessidades científicas para acompanhar as transformações dos sistemas alimentares. Intitulado “EFSA needs for scientific excellence and regulatory readiness”, o documento reúne prioridades para fortalecer a avaliação de riscos e subsidiar a construção da próxima estratégia da instituição, buscando conciliar agilidade, rigor científico e transparência. Trata-se de uma reflexão estratégica sobre capacidades e lacunas científicas, que não estabelece, por si só, novas exigências para as empresas nem altera os procedimentos de autorização de produtos.

A publicação organiza essas necessidades em seis frentes interligadas: inovação e competitividade; avanços metodológicos e técnicos; sustentabilidade e Saúde Única; preparação e resposta rápida; comunicação de riscos e ciências sociais; e inteligência artificial e dados.

Entre os temas destacados estão os alimentos obtidos por cultivo celular, a fermentação de precisão, novas fontes de proteínas e nutrientes e o aproveitamento de subprodutos agroalimentares. Segundo o artigo, a evolução dessas tecnologias traz desafios relacionados à disponibilidade de dados, à identificação de perigos e à adequação dos métodos utilizados para avaliar a segurança.

Nesse cenário, a EFSA aponta a necessidade de ampliar conhecimentos e desenvolver abordagens compatíveis com as características dos novos produtos e processos. A avaliação da alergenicidade e da segurança de proteínas, por exemplo, demanda avanços na compreensão dos efeitos do processamento, da matriz alimentar e da digestibilidade. O artigo também destaca a necessidade de aprimorar ferramentas para prever reatividade cruzada com alérgenos conhecidos e o potencial de novas proteínas induzirem sensibilização. Para quem desenvolve ingredientes proteicos, essas questões reforçam a importância de avaliar as características do produto efetivamente obtido e a pertinência dos dados disponíveis para seu processo de fabricação e suas condições de uso.

O aproveitamento de matérias-primas provenientes da bioeconomia circular também recebe atenção. Além da valorização de subprodutos para obtenção de ingredientes, o documento aborda novos materiais destinados ao contato com alimentos e tecnologias de reciclagem. Essas aplicações exigem capacidade científica para identificar possíveis contaminantes e avaliar exposições associadas aos materiais e aos processos empregados. Na prática, o potencial de redução de desperdícios ou de impacto ambiental precisa ser acompanhado da investigação de segurança: a origem da matéria-prima e as etapas de processamento ou reciclagem podem influenciar os perigos e a exposição que devem ser avaliados.

Na área metodológica, a publicação destaca a importância de investir em novas abordagens de avaliação, incluindo métodos que podem reduzir a dependência de ensaios com animais, ferramentas computacionais e tecnologias que permitem analisar conjuntos de informações biológicas, como dados genômicos e metabolômicos. A integração dessas evidências depende de validação, capacitação e critérios que sustentem seu uso na avaliação de riscos. A EFSA ressalta que ainda existem lacunas para a adoção plena dessas novas abordagens metodológicas, conhecidas como NAMs. Segundo o editorial, estudos in vivo, ao menos para toxicidade subcrônica, continuam necessários enquanto essas lacunas não forem superadas. Assim, o avanço de métodos alternativos não deve ser interpretado como dispensa generalizada de estudos com animais.

A sustentabilidade é discutida sob a perspectiva de Saúde Única, que considera as relações entre saúde humana, animal e ambiental. O artigo ressalta a necessidade de fortalecer a cooperação entre instituições para enfrentar desafios como resistência aos antimicrobianos, surtos de doenças transmitidas por alimentos e efeitos das mudanças climáticas sobre a segurança dos alimentos.

A preparação para riscos emergentes é outra prioridade. A EFSA aponta a necessidade de combinar monitoramento de sinais precoces, modelos preditivos e cooperação entre instituições para antecipar situações que envolvam, por exemplo, eventos climáticos extremos, doenças e interrupções das cadeias de abastecimento. Para as empresas, a reflexão amplia a importância de acompanhar mudanças que possam afetar a segurança de matérias-primas e processos.

O documento também trata da comunicação de riscos e das ciências sociais. Compreender como diferentes públicos percebem as tecnologias e interpretam informações de segurança pode contribuir para uma comunicação mais clara e adequada. Na leitura da Regularium, empresas que desenvolvem novos produtos podem se beneficiar de explicar o processo de produção, as evidências de segurança e suas limitações em linguagem acessível, mantendo coerência entre o conteúdo técnico e a comunicação ao mercado.

A inteligência artificial aparece como uma ferramenta transversal. Entre suas possíveis aplicações estão a organização de evidências científicas, a identificação antecipada de riscos e o apoio à comunicação. A EFSA defende, porém, que sua adoção seja acompanhada de validação, rastreabilidade, governança de dados e supervisão humana, preservando a responsabilidade dos especialistas pelas avaliações. O editorial propõe avançar de avaliações centradas em documentos para um modelo com evidências e dados estruturados, permitindo verificar a completude e a consistência dos dossiês e reutilizar informações. Para as empresas, isso sinaliza a relevância de organizar dados, métodos e resultados de forma rastreável, com identificação clara das fontes e das versões dos documentos.

Para as empresas de alimentos e ingredientes, essas prioridades oferecem referências para o planejamento de pesquisa, desenvolvimento e estratégia regulatória. Na leitura da Regularium, o principal desdobramento é integrar a avaliação de segurança às etapas iniciais da inovação: identificar lacunas de informação antes de contratar estudos, verificar a aplicabilidade das evidências ao ingrediente e ao processo propostos e definir as condições de uso e os cenários de exposição a serem avaliados. Esse planejamento pode ajudar a evitar estudos pouco pertinentes e retrabalho na preparação do dossiê, sem garantir redução de prazos ou aprovação.

Para empresas brasileiras, o documento constitui uma referência internacional de tendências científicas, especialmente útil em projetos com perspectiva de acesso ao mercado europeu. Sua publicação, contudo, não implica incorporação automática dessas abordagens aos requisitos brasileiros. A estratégia de cada projeto deve considerar as regras e orientações aplicáveis no mercado de destino, além das particularidades do produto.

A Regularium acompanha os avanços científicos e regulatórios internacionais e apoia as empresas na avaliação da viabilidade regulatória, na identificação de lacunas científicas e no planejamento de dossiês de segurança para novos alimentos e ingredientes.

Fonte: European Food Safety Authority (EFSA) et al. EFSA needs for scientific excellence and regulatory readiness. EFSA Journal, 2026, 24, e240901. https://doi.org/10.2903/j.efsa.2026.e240901

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